📆 A cronologia das Testemunhas de Jeová para Babel e Abraão

Segundo a linha do tempo oficial das Testemunhas:
- Dilúvio: 2370 a.C.
- Babel: ~2250 a.C. — primeira cidade pós-diluviana.
- Abraão: 2018 a.C.
A ideia é que o hebraico original de Adão sobreviveu à confusão das línguas em Babel e foi preservado com a linhagem de Sem até Abraão.
O problema: o hebraico não existia ainda.
Em 2000 a.C., a Mesopotâmia falava sumério e acádio; Canaã tinha línguas cananeias primitivas, ancestrais do hebraico, mas não o hebraico como o conhecemos.
📚 A prova está no próprio texto bíblico
O Pentateuco traz trocadilhos que só funcionam no hebraico tardio ou contêm aramaísmos introduzidos no período pós-exílico.
Exemplos:
- Gênesis 11:9 — “Babel” ↔ balal (“confundir”).
- Gênesis 31:47 — presença de frase aramaica (Jegar-Saaduta).
- Levítico 26:34-35 — teologia sabática do exílio.
- Números 24:7 — uso de palavra aramaica delyā (“balde”).
Mas o caso de Gênesis 2:23 é particularmente revelador.
🔍 Gênesis 2:23 — Análise gramatical
O texto hebraico diz:
לְזֹאת יִקָּרֵא אִשָּׁה כִּי מֵאִישׁ לֻקֳחָה־זֹּאת
l’zoṯ yiqqārēʾ ʾiššāh kî mēʾīš luqḥāh zōṯ
“Ela será chamada mulher (ishá), porque do homem (ish) foi tomada.”
Origem das palavras
- אִישׁ (ish) — “homem, macho humano”. Termo de raiz semítica comum (ʾnš), presente também em acádio (īšu).
- אִשָּׁה (ishá) — “mulher, esposa”. Forma feminina que deriva de uma reanálise linguística tardia, não diretamente de ish.
Por que é anacrônico
Nos estágios mais antigos do hebraico (e de suas línguas irmãs), a forma feminina para “homem” não era ishá.
- No hebraico arcaico (Idade do Ferro inicial), “mulher” era muitas vezes נָשִׁים (nashim) no plural ou אִשֶׁת (eshet) no construto, sem vínculo etimológico direto com ish.
- A ligação ish ↔ ishá é um jogo de palavras artificial, criado por um redator que já vivia num período em que ishá era a forma corrente para “mulher” — ou seja, séculos depois de Abraão e Moisés.
- Essa parelha lexical só faria sentido no hebraico tardio (séculos VI–IV a.C.), quando a pronúncia e a morfologia já tinham mudado.
Implicações
- O trocadilho só funciona no hebraico da época do pós-exílio, não no suposto hebraico original de Adão.
- Se Moisés tivesse escrito isso em 1513 a.C., no idioma da época, o trocadilho simplesmente não existiria.
🏛️ Linha do tempo — Babel, Abraão e o hebraico real
Data | Evento segundo TJs | O que diz a linguística e arqueologia |
---|---|---|
2370 a.C. | Dilúvio | Sem registro histórico |
~2250 a.C. | Torre de Babel | Mesopotâmia já multilíngue: sumério, acádio, elamita |
2018 a.C. | Abraão | Fala amorita e acádio; hebraico inexistente |
~1000 a.C. | Reino de Davi | Primeiras formas reconhecíveis de hebraico escrito |
Séculos VI–IV a.C. | Pós-exílio babilônico | Hebraico tardio, influência aramaica — época do trocadilho ish/ishá |
📌 Conclusão
O caso de Gênesis 2:23 expõe de forma cristalina que o Pentateuco, como o temos hoje, não é um registro intacto da época de Moisés.
O hebraico desse versículo reflete uma fase linguística muito posterior, revelando edição ou composição no período pós-exílico.
Isso derruba a ideia de que YHWH “sempre falou hebraico” com seus servos e desmonta a crença TJ de que o idioma foi preservado puro desde Adão.
📖 Sugestões de leitura
- Garr, W. Randall. Dialect Geography of Syria-Palestine, 1000–586 B.C.E. Harvard Semitic Studies.
- Tov, Emanuel. Textual Criticism of the Hebrew Bible.
- Kutscher, E.Y. A History of the Hebrew Language.
- Schniedewind, William M. A Social History of Hebrew: Its Origins Through the Rabbinic Period.
- Jwfact Abraão falava Hebraico?
- Jwfacts Torre de Babel.