🎭 “Seria Presunçoso”: Quando a Organização de Deus Entra no Tribunal

🎭 “Seria Presunçoso”: Quando a Organização de Deus Entra no Tribunal

Dois Discursos. Duas Linguagens. Duas Realidades.

Durante décadas, as publicações das Testemunhas de Jeová ensinaram algo inequívoco:

Deus sempre teve uma organização visível.
Fora dela não há salvação.
O “escravo fiel e discreto” foi escolhido por Cristo em 1919.

Essa narrativa é reforçada de maneira contundente no livro:

Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra

Mas quando essa mesma organização foi questionada sob juramento diante de uma comissão governamental investigando abuso infantil… a linguagem mudou.

E mudou drasticamente.


🧠 Parte 1 — A Retórica Sob Juramento

Em 2015, durante audiência pública na Austrália, o advogado Angus Stewart questionou Geoffrey Jackson sobre a posição do Corpo Governante.

A pergunta foi direta:

“And do you see yourselves as Jehovah God’s spokespeople on earth?”

Jackson respondeu:

“That I think would seem to be quite presumptuous to say that we are the only spokesperson that God is using.”

Tradução clara:

👉 Seria presunçoso dizer que são o único porta-voz de Deus.


🚨 O Problema

Durante décadas, as publicações afirmam exatamente isso.

O livro Poderá Viver Para Sempre ensina que:

  • Deus sempre teve uma organização.
  • Hoje essa organização é identificável.
  • É necessário estar dentro dela para sobreviver ao Armagedom.

A retórica interna é categórica.

A retórica externa é cautelosa.


🏛 Parte 2 — A Regra das Duas Testemunhas

Outro ponto crucial da audiência foi a política baseada em Deuteronômio 19:15 — a chamada regra das “duas testemunhas”.

Quando questionados sobre como lidavam com acusações de abuso infantil sem segunda testemunha, a defesa institucional foi apresentada como fidelidade bíblica.

Mas os dados revelados na própria comissão foram devastadores:

1.006 alleged perpetrators
0 reported to police by the organization

Esse número veio dos próprios registros internos apresentados à comissão.


🔍 Estratégia Retórica Observada

Durante o interrogatório, nota-se um padrão:

1️⃣ Diluição de responsabilidade

A responsabilidade é frequentemente atribuída a:

  • “anciãos locais”
  • “circunstâncias específicas”
  • “leis do país”

Mas o manual interno de anciãos é padronizado globalmente.

2️⃣ Linguagem técnica

Termos como:

  • “procedures”
  • “scriptural principles”
  • “spiritual matters”

Substituem palavras como:

  • proteção de crianças
  • responsabilidade institucional
  • falha sistêmica

3️⃣ Redução da exclusividade

No tribunal:

“Seria presunçoso…”

Nas publicações:

Único canal de Deus.


📖 Parte 3 — O Discurso no Livro

No livro Poderá Viver Para Sempre, a organização é apresentada como:

  • A arca moderna de salvação
  • O único meio aprovado por Deus
  • A estrutura que Cristo escolheu em 1919

A linguagem é:

  • Absoluta
  • Confiante
  • Escatológica
  • Excludente

Não há hesitação.
Não há “presunção”.
Há certeza.


⚖ Dois Ambientes, Dois Discursos

AmbienteLinguagemAutoridade
Publicações internasAbsolutaExclusiva
Tribunal secularModeradaRelativizada

Isso revela um fenômeno clássico descrito na sociologia da religião:

👉 Organizações de alta demanda tendem a modular discurso conforme o contexto de poder.

Internamente: autoridade carismática.
Externamente: adaptação institucional.


🔥 A Pergunta Incômoda

Se o Corpo Governante:

  • Foi escolhido por Cristo em 1919,
  • É o único canal de comunicação divina,
  • É guiado diretamente pelo espírito santo,

Por que sob juramento essa exclusividade se torna “presunçosa”?

Estamos diante de:

  • Ajuste estratégico?
  • Autoconsciência institucional?
  • Ou uma tensão entre teologia e responsabilidade legal?

🧨 Conclusão

A audiência da Royal Commission não apenas expôs falhas administrativas.

Ela revelou algo mais profundo:

Uma organização que fala com voz profética dentro do Salão do Reino
e com voz cautelosa dentro do tribunal.

Do púlpito:
👉 Certeza absoluta.

Sob juramento:
👉 “Seria presunçoso.”

A retórica não mente.
Ela revela onde está o poder — e onde está o medo.



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